Fernando Pessoa - poemas
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Alberto Caeiro
 
XLI - No Entardecer
 
 
     No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
     Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
     Que passa, um momento, uma leve brisa...
     Mas as árvores permanecem imóveis
     Em todas as folhas das suas folhas
     E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
     Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

     Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
     Fôssemos nós como devíamos ser
     E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
     Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
     E nem repararmos para que há sentidos ...

     Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
     Porque a imperfeição é uma cousa,
     E haver gente que erra é original,
     E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
     Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
     E deve haver muita cousa
     Para termos muito que ver e ouvir. . .

 
 


 
 


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