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Fernando Pessoa
Glosas

 
Toda a obra é vã, e vã a obra toda.
O vento vão, que as folhas vãs enroda,
Figura nosso esforço e nosso estado.

O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita
A possibilidade erma e infinita
De onde o real emerge inutilmente,
E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.
Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo
Suposto, o Fado que chamamos Deus
Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.
Uma coisa é uma cara contraída
E a outra uma água com um leve sal, 
E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,
E, renovando o curso,  nasce e morre
Nos horizontes do que contemplamos.
Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,
Jazemos o instinto e a ciência.
E o sol parado nunca percorreu 
Os doze signos que não há no céu

 

  • Gnomos do luar que faz selvas, Poesias Inéditas 
  • Gomes Leal, Cancioneiro 
  • Gostara, realmente, Poesias Inéditas 
  • Gostava de gostar de gostar, Álvaro de Campos
  • Gozo os campos sem reparar para eles, Alberto Caeiro
  • Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho, Ricardo Reis

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